Sexta-feira, Setembro 08, 2006

Ficou barato

Pedro Henrique Barreto

Os atuais campeões da Copa Sul-Americana e da Libertadores da América fizeram um belo jogo ontem, em Buenos Aires, válido como partida de ida pela Recopa. Muita disposição e muita luta deram ao Boca Juniors vantagem importante para o jogo de volta, na próxima quinta, no Morumbi. Com o placar de 2x1 em La Bombonera, os argentinos agora jogam pelo empate para ficar com o título.

O São Paulo começou bem, neutralizando as principais jogadas ofensivas do Boca. Mas logo de cara, perdeu sua principal referência no ataque. Aloísio saiu contundido e deu lugar a Alex Dias. A modificação desestruturou a saída de bola tricolor, já que Krapoviesa, pela esquerda, e Calvo, pela direita, tomavam conta do ex-vascaíno e de Thiago com extrema facilidade. Com a saída de bola comprometida, o São Paulo se reduzia a intentos esporádicos de seus pontas. Num deles, em um chute de longa distância, Thiago abriu o marcador, após falha do goleiro Bombadilla.

O jogo seguiu amarrado até o intervalo, com o Boca com maior volume de jogo. Chegou a ter uma cabeçada no travessão e freqüentemente levava perigo à zaga tricolor, que batia cabeça como se estivesse num show de metal pesado. Fabão fazia o papel de Lugano, atuando na sobra, quase como líbero. Mas lhe falta decisão e a companhia de Edcarlos, especificamente na noite de ontem, foi trágica. Bastou o juiz apitar o início da segunda etapa para o estádio voltar a se inflamar e empurrar o Boca para frente. Quando todos esperavam uma postura malandra dos são-paulinos, se segurando com firmeza e saindo em velocidade, eis que a equipe se “achicou”. Passou a dar chutões, não conseguiu segurar a bola por mais de 5 segundos e cometia faltas em seqüência, em um claro desequilíbrio coletivo.

Para piorar, Alfio Basile, percebeu rápido que a falta de um centroavante nato no time brasileiro permitia avançar Fernando Gago, excelente cabeça-de-área xeneize e por onde passam todas as jogadas de ataque da equipe. As comparações com o futebol clássico de Fernando Redondo, por ora, ainda são um exagero, mas o rapaz marca bem e vende talento. Dos pés dele, saiu o passe para o tento de empate. Edcarlos saiu mal na linha de impedimento e Rodrigo Palácio, o endiabrado xodó da torcida, deslocou bem Rogério Ceni: 1x1.

A partir daí, só deu Boca. É emblemática a constatação de Paulo César Vasconcellos, lá pelo meio da segunda etapa. “O São Paulo não ganhou uma dividida sequer, em todo o jogo”. O time se encolheu, rifou todas as saídas de bola e deixou um gigantesco buraco entre a defesa e o meio-campo. Foi por ali que Palácio, Palermo, Marino e Cardozo costuraram todas as jogadas de perigo, nunca com mais de três toques na bola. Em uma dessas, Rogério Ceni deu rebote em um chute bem colocado de fora da área e Palácio chegou mais rápido. Boca 2x1.

O São Paulo foi envolvido porque não houve um mínimo de coordenação da nova zaga e porque os meias fizeram uma marcação de 4ª série, do tipo “ele é meu enquanto estiver nesse círculo, passou dele, é obrigação do pessoal de trás”. Os 10 metros entre a meia lua e o início do meio-campo decidiram o jogo, que poderia ter sido muito mais doloroso para os brasileiros. Palácio teve mais um par de chances claras de gol e Dátolo, jovem promessa que entrou no segundo tempo, quase deixou o seu num balaço de fora. Ficou barato e agora, a esperança são-paulina é que Muricy Ramalho convença seus jogadores que uma vitória em La Bombonera era algo factível. Só os jogadores não perceberam isso, e ainda saíram do estádio louvando o “bom” resultado. Não foi. Essa equipe pode mais e, felizmente para os torcedores, o técnico sabe disso. No Morumbi, não haverá desculpa. Vão bater de frente com uma equipe estruturada, que chegou à incrível marca de 14 vitórias consecutivas. Mas que tem problemas e que, em terreno estranho, pode ser batida sem maiores rezas brabas.

Há que se destacar um elemento fundamental na noite de ontem: “la hinchada”. É como se a confiança da torcida em nada dependesse do futebol mostrado pela equipe. Parece amor de mãe. Por mais que as coisas não estejam dando certo, eles sabem que não podem parar, jamais, nem por um segundo sequer. Foi essa solidariedade incondicional que emocionou Alfio Basile, em sua despedida á frente do time antes de assumir de vez a Seleção Argentina. E é um comportamento igualmente inflamado que o São Paulo precisa, na próxima quinta, para abocanhar mais um troféu.

Sexta-feira, Agosto 25, 2006

Enfim, o meio

Fim do primeiro turno do Brasileirão* e algumas considerações a fazer. Quando o campeonato parou para a disputa da Copa do Mundo, os cinco primeiros colocados eram: Cruzeiro, Internacional, São Paulo, Fluminense e Santos. Considerava que o título dificilmente sairia das mãos de uma destas equipes. Não mudo minha opinião. Na verdade, vou mais adiante. O São Paulo será campeão.

Como se não bastasse a estrutura, organização, elenco e cinco pontos à frente do segundo colocado mesmo tendo um jogo a menos, o time ainda conta com a tal sorte de campeão. A partida de ontem contra o Paraná foi complicadíssima. Aos cinco minutos de jogo, o São Paulo sofreu o primeiro gol. Logo em seguida, Aloísio empatou. Aos 21, depois de Rogério Ceni rebater uma bola, o Paraná tomou a frente de novo, 2 a 1.

O resultado era excepcional para os paranaenses que, de fato, têm uma equipe arrumadinha. Mas o segundo tempo chegou e a virada também. Fim de jogo no Morumbi: 3 x 2. O iminente tropeço não se concretizou. O São Paulo é mais líder do que nunca.

A derrota para o Internacional na final da Libertadores mobilizou ainda mais o grupo para a conquista do título brasileiro deste ano. Feito que não se repete desde 1991. Como sou amigo de muitos tricolores cricris, fica a esperança de que eu esteja completamente errado e o São Paulo não fique nem entre os cinco melhores da tabela.

Uruca Azul - Por falar em não ficar nem entre os cinco primeiros da tabela, o meu Cruzeiro está difícil. Oito rodadas sem vencer. Jogos esquisitíssimos. Nem falo nada em relação às arbitragens. Falo da postura dos jogadores mesmo. Nas três últimas partidas em casa (Cruzeiro 3 x 3 Santa Cruz, Cruzeiro 2 x 3 Fluminense, Cruzeiro 2 x 2 São Paulo) a equipe esteve displicente e insegura.

O time mineiro não consegue segurar um placar sequer. A derrota para o Botafogo na quarta-feira é sinal de que o trem está feio mesmo para os lados da Toca da Raposa. É aquela história: quem perde para o Botafogo (17º) vai empatar com quem?

Segundona - Não dá para falar de Botafogo sem fazer uma visitinha à zona do rebaixamento. Além do alvinegro carioca, Corinthians, Fortaleza e Santa Cruz compõem o time dos piores do Brasileirão. Ao contrário do que acontece na ponta de cima da tabela, não consigo fazer prognóstico algum sobre as equipes que cairão para a segundona. Tem clube que passa 27 rodadas namorando a série B e se salva no último jogo.

Não nego que se o Corinthians/MSI caísse seria bem legal. Eu ficaria contente. Será que o Kia viria aqui no Serejão ver os “galácticos” enfrentarem o Brasiliense? Melhor nem pensar nisso. O “empresário” iraniano e Luiz Estevão no mesmo estádio seria catastrófico.

*São Paulo, Paraná, Internacional e Atlético-PR jogaram uma partida a menos que as demais equipes.

Segunda-feira, Agosto 21, 2006

Tapa de luva de goleiro

Rogério Ceni foi o nome do jogo ontem. Defendeu um pênalti aos 40 do primeiro tempo (seria o terceiro gol do Cruzeiro). Dois minutos depois, tornou-se o goleiro que mais tentos marcou na história do futebol. Para completar, converteu o pênalti que deu números finais ao confronto: 2 a 2. Atuação ímpar de um atleta completo e invejável.

Tenho problemas sérios de antipatia em relação ao Ceni. Vide meu último comentário. Fiquei estupidamente agradecido pela falha do goleiro no segundo jogo da final da Libertadores. A partida de ontem foi como um tapa na minha cara. Eu acusei o golpe. Provavelmente, minha birra com o camisa 1 tricolor seja por conta de sua profunda identificação com o clube que defende. Ele é o elo partido entre o futebol mercantilizado do presente e o romantismo do tempo do jogador-torcedor do passado.

Ceni é quem mais vezes vestiu a camisa do São Paulo. Ídolo incontestável da torcida são-paulina. Um exemplo de profissionalismo e integridade. Um nome que já tem lugar reservado na história do futebol mundial. Sei que o cara nunca vai ler isso aqui, mas aproveito para me desculpar por todas minhas críticas infantis. Era medo de admitir minha profunda admiração por seu futebol.

Não devo deixar de espalhar boatos, fazer acusações infundadas, etc. Afinal, o futebol precisa disso também. De qualquer maneira, sobre a qualidade do Ceni não discuto mais. É o goleiro mais completo do Brasil e um dos maiores de todos os tempos.

Sobre o Cruzeiro, só torço para que fique na primeira divisão. O time não tem rosto. Se não fosse a boa atuação de Fábio, o São Paulo teria levado três pontos para o Morumbi. Espero que apareça no meu Cruzeiro um atleta que lembre a dedicação e a paixão que Rogério Ceni demonstra pelo tricolor paulista.

Quinta-feira, Agosto 17, 2006

Campeão nos mínimos detalhes

O Ceni falhou no primeiro gol. O lance foi normal. Soltou a bola que não podia soltar. Os dois jogos da final foram muito bem disputados. Como previsto, a vitória para um dos lados foi definida em um detalhe. Mão de sabonete é um detalhe.

Detalhe também foi a ausência absurda do Ricardo Oliveira no segundo jogo. Ele é um cara que se preocupa com os detalhes. Fez muita falta. O time do São Paulo é melhor, mas a concentração e dedicação do Internacional são de se aplaudir. Percebi um poder de superação muito grande em alguns jogadores limitados tecnicamente que disputaram esta decisão. Vide Clemer. Falhou no gol do Lenilson, o que não é nenhuma surpresa. Mas salvou o time colorado por mais de uma vez em Porto Alegre e no Morumbi. Mérito para o Abel Braga também. Ao contrário do que temia, não fez nenhuma bobagem que comprometesse as chances dos gaúchos superarem o tricolor paulista.

Agora, tem algumas pequenices (pequenices não são detalhes) que não dá para entender. A expulsão do Tinga foi uma brutalidade. O cara faz o provável gol do título de campeão da América e não pode extravasar na comemoração. A rigidez do argentino Horacio Elizondo neste caso se confundiu como uma vontade de aparecer um pouquinho também.

Lamento não ver este bom time do Internacional disputando de igual para igual o campeonato mundial com o Barcelona no Japão. Do jeito que as coisas andam, não vai sobrar um jogador no Beira Rio para contar história. Tinga já foi para o Borussia Dortmund (Alemanha). Sobis também deve estar com os dias contados. O jogo de ontem também foi a despedida de Bolívar. É uma pena. Saudades do tempo em que sabíamos de cor e por um bom tempo a escalação dos grandes esquadrões nacionais.

Sexta-feira, Agosto 11, 2006

Não me perdi na selva de pedra

Chico Macedo

Cheguei à São Paulo por volta do meio-dia do sábado (5/8). Quatorze horas de viagem num ônibus convencional da Real Expresso. Eu não sou do tipo de pessoa que tem problemas de sono. Durmo tranqüilamente em qualquer canto. Mas não tive sorte desta vez.

Minha poltrona era a número sete. Na minha frente, um cidadão com cara de quem trabalhou 16 horas no dia dormia profundamente. O encosto estava deitado o máximo possível. Isto é, quase no meu colo. No banco atrás do meu sentavam uma senhora e seu filhinho. Era um bilhete para os dois passageiros. Isso é normal quando a criança tem até uns dois anos. A diferença é que o menino já tinha uns seis e se divertia brincando de socar o encosto do assento da frente, no caso, o meu.

Fiquei na janela. Por um momento cheguei a pensar que viajaria sem companhia. Já articulava a forma de me ajeitar usando as duas poltronas. Acontece que aos 45 minutos do segundo tempo o meu companheiro embarcou no ônibus. Não só eu percebi sua chegada, como todos os demais passageiros. Tratava-se de um senhor de idade. Ele já abriu a portinha do corredor reclamando da taxa extra que a empresa lhe cobrava por levar um fogão no bagageiro. Agora a trupe estava completa. Eu era uma ilha de bom senso cercada de falta de noção por todos os lados.

Run Forrest Run - Minhas pretensões de uma boa noite de sono foram para o espaço. Logo batizei meu companheiro de Forrest Gump. Isso porque entre quatro e seis da manhã ele resolveu contar sua vasta história de vida para todos os presentes. O tom de voz tinha de ser alto o suficiente para que o dono da poltrona ao lado do banheiro no fundo do ônibus escutasse os “causos” com a mesma “clareza” que o motorista.

O pior é que eu não consigo simplesmente não prestar atenção. Tanto é que sei que este senhor se chama Joel Borges. Tem 68 anos. Integra o time dos pioneiros da capital federal. Trabalhou na construção de Brasília. Era eletricista e mexia com maquinário pesado. Nasceu e cresceu no Ceará. Desde muito novo prestava serviços de menino para as mais importantes famílias da região sul do estado. Ajudava nos serviços domésticos e mandava recados para os demais figurões influentes da redondeza. Muitas vezes aproveitava estes encontros para trocar de patrão. Isso ocorria quando achava que não estava mais sendo bem tratado na casa.

Desceu para o Rio de Janeiro em busca de trabalho e logo chegou à Brasília. O objetivo era crescer junto com a cidade que se erguia. Casou com uma mineira de Governador Valadares e teve uma filha que hoje é médica. Apesar de frisar várias vezes que a filha é doutora, não gosta da postura arrogante da menina. Afinal, mesmo não tendo muito estudo (quarto ano do ensino fundamental) foi ele que deu condições para ela chegar aonde chegou. Ele tocou neste ponto muitas vezes, muitas vezes mesmo.

Conheceu Castello Branco. Segundo ele, o melhor presidente que o Brasil já teve. Circulava também entre Juscelino e outras autoridades da época. Sobre a política atual é taxativo. “Lula é um ignorante. Tem que ser doutor para dar conta de comandar um país”. Vai votar no Alckmin.

O destino deste contador de histórias era Osasco, na grande São Paulo. Viajou para visitar uma amante. Segundo Joel, a mulher e a filha nem sonhavam que ele estava na estrada. Como explicar o fogão na história? Não faço idéia. O fato é que a versão made in Ceará do Forrest Gump cessou a conversa por volta das seis da manhã. Pelo jeito não gostava de papear durante o dia. A essa altura eu já não tinha mais um pingo de sono. Ele cansou. Dormiu como um anjo entre 10 da manhã e meio-dia.

Como não conhecia nada, desci do baú e peguei o primeiro táxi que avistei no Terminal Rodoviário do Tietê direto para o hotel. O preço era de tabela, sem taxímetro: 38 reais. O motorista era até gente boa, mas só na volta percebi que dava para chegar tranqüilo de metrô onde me hospedei. Economizaria R$ 35,90. Passei pela marginal, centro, cruzamento da Ipiranga com a avenida São João e cheguei ao F1. Muito bem localizado. Fica na avenida da Consolação, no bairro de mesmo nome, quase na Paulista e distante dois quarteirões da estação de metrô.

Direito de ir e vir - Para quem é de Brasília, andar no metrô de São Paulo é chocante. O transporte público por lá é cerca de 100 vezes superior ao nosso. Eu calculei. Para uma cidade planejada, a diferença é vexaminosa. Eu, que não sou o rei do senso de direção, me virei sem nenhum problema. Tudo muito bem sinalizado, claro, prático e barato. O bilhete unitário custa R$ 2,10 e lhe permite circular para tudo quanto é lado. Achei impressionante. Carro por lá é luxo. Pelo menos para quem mora na região atendida pela rede de metrô.

Tomei um banho no hotel em um chuveiro igual ao que o Ferris usa no início do filme Curtindo a Vida Adoiado. É massa. Andei pela Paulista até a estação da Consolação. Comprei a passagem e peguei o metrô sentido Tucuruvi. Desci na Paraíso e, sem esperar um segundo sequer, peguei outro metrô sentido Corinthians-Itaquera. Desembarquei na Sé. De lá, troquei novamente de metrô sentido Barra Funda e, finalmente, cheguei à estação República, meu destino final. Esse percurso durou meia hora ao todo.

Pedras que rolam - Minha idéia era chegar à rua 24 de maio e conhecer a famosa Galeria do Rock. Quatro andares onde se encontra de tudo relacionado ao gênero. LPs, CDs, roupas, raridades, instrumentos musicais, tatuadores e muitas pessoas de preto, piercings e cabelo peculiares. Interessante o lugar.

Procurei alguma coisa de Raul Seixas, mas o máximo que consegui foi uma loja que contava com um disco especial do Raul (Let Me Sing) que sairia pela bagatela de mil reais. Calma lá, né? De qualquer maneira, não tive tempo de explorar com mais tranqüilidade o local. Já passava de quatro da tarde e meu principal objetivo do dia era assistir ao jogo entre Corinthians e Atlético Paranaense no Pacaembu, às 18h.

Eu uso óculos - Tomei o rumo da 24 de maio de novo e ao passar pelas milhares de banquinhas de camelô lembrei do conselho que meu amigo Alexandre tinha me dado quando soube que iria à São Paulo. “Muleque, o esquema é você andar com um destes óculos escuros de feira. Os bandidos não gostam de abordar pessoas que não sabem para onde estão olhando”, disse. Eu não dou muito certo com óculos escuros e nem tenho muita paranóia em relação a assaltos e tal. Mas tinha tantas opções e variações de preços que decidi experimentar alguns modelos. Teve um menorzinho lá que caiu bem no meu rosto e resolvi comprar. Custou R$ 10.

Imediatamente, botei o novo acessório na cara e segui rumo à estação da República para fazer o caminho de volta. Andei uns 15 minutos a pé até o estádio. Não sabia direito o trajeto e achei por bem seguir um casal de corintianos que desceram na estação da Consolação comigo.

Para mim estava tudo certo. Não tinha errado de caminho até o momento e só precisava seguir aqueles dois até o Pacaembu. O que eu não percebi foi que, naquele momento, eu era um barbudo de cara fechada, com um óculos escuro de malandro no rosto, perseguindo um casal de namorados descaradamente.

De possível vítima passei a iminente ameaça na maior metrópole do Brasil. Os namorados ficaram constrangidos com a perseguição e deram aquela típica parada de “vamos fingir que a gente está procurando um endereço qualquer por aqui para ver se esse cara passa”. Diante disso, tive que abortar o plano e me virar para acertar o resto do percurso rumo ao estádio. Cheguei até com certa facilidade.

Torcida diferente - O Corinthians estava há oito jogos sem vencer. A Gaviões da Fiel fez um enterro simbólico do time como forma de protesto antes da partida, mas as arquibancadas estavam lotadas. Os torcedores atenderam ao chamado dos jogadores e encheram o estádio para ajudar a tirar o time da incômoda última colocação no Campeonato Brasileiro. O público pagante anunciado no auto-falante foi de 33 mil pessoas, recorde do estado nesta edição da competição. O Pacaembu é muito charmoso. A gente fica bem próximo ao campo e as instalações estão bem conservadas.

Entrei uma hora antes do início da partida. Deu tempo de assistir o segundo tempo da preliminar entre o time de veteranos do Corinthians e um combinado de ex-jogadores de outras equipes do estado. Dinei, Biro Biro e Neto estavam em campo. A medida atual da cinturinha do ex-camisa 10 da Fiel se confunde com a do próprio círculo central do gramado.

Fiquei de frente para a Gaviões. A torcida é interessante mesmo. No momento do gol do time do coração é igual a qualquer outra do Brasil. Mas me impressionou a atitude deles assim que a equipe paulistana sofreu o 1 a 0. O gol foi logo no início do jogo. Uma falha absurda de domínio de bola do argentino Sebá. Após o silêncio natural do momento da bola na rede, o estádio inteiro começou a tremer de tanto que os caras pulavam e cantavam. Achei de arrepiar mesmo.

A partida fez juz à tradição do time alvinegro de conquistar vitórias sofridas. O “Timão” virou o jogo antes dos quinze minutos. Tevez e Rafael Moura foram os autores dos gols. Muita vontade dos atletas, mas a equipe mostrava-se nitidamente desarrumada em campo. Aos trancos e barrancos os jogadores seguraram o placar até o fim. O lance de maior perigo dos paranaenses depois do primeiro gol foi justamente o último antes do apito final do juiz. Paulo Almeida se esticou todo e tirou uma bola em cima da linha para alívio da torcida que lotou o Pacaembu.

Fim de jogo. Hora de voltar para o hotel. No trajeto ainda deu tempo para uma variada básica antes de acertar o rumo certo para chegar à Paulista. Nada de grave, alguns minutos de caminhada e me localizei novamente. São Paulo me surpreendeu positivamente. Esperava algo menos acolhedor. Na verdade, me senti muito confortável na cidade. Espero voltar mais vezes.

Quinta-feira, Agosto 10, 2006

Barcelona e Inter?

Opa! Não é que deu Inter no Morumbi? E o mais surpreendente, apesar de se tratar de uma final, Abel Braga e Clemer não comprometeram ainda. A bem da verdade, o goleiro colorado foi um dos destaques da partida. Atento, seguro e sem boné. Melhor assim. O complicado é que o arqueiro do time gaúcho é uma espécie de Kinder Ovo: sempre uma surpresa. O lado vermelho do Rio Grande do Sul espera que ele não tenha guardado a surpresa para Porto Alegre.

A partida foi muito boa de assistir independente de para quem se torcia. As expulsões do primeiro tempo tornaram o jogo aberto. Não faltaram oportunidades de gol. Não consigo esquecer do gol perdido pelo Sobis quando a partida estava 2 a 0. Está bem que ele já tinha feito dois, mas este tipo de lance não se pode desperdiçar em uma final.

Do lado são-paulino, rolou uma síndrome Valdir Papel no Josué. Estádio cheio, muito barulho, muita pressão. Cenário típico para motivação se transformar em destempero emocional. O juiz acertou em aplicar o cartão vermelho. O volante tricolor deu mole. Cotovelo demais para uma jogada que, inicialmente, não oferecia nenhum perigo. Pior que foi logo no início do jogo. É uma perda considerável para o jogo de volta. Apesar de que a suspensão do Fabinho deixa a situação elas por elas. Fabinho faz a mesma falta para o Inter que Josué para o São Paulo. Se fosse o Mineiro, aí sim, seria catastrófico.

Nana neném - Cabe falar um pouquinho de Souza e Leandro. São meio doidos e limitados tecnicamente. Mas mostraram muita vontade, correria e não se esconderam pelo campo. Danilo, por sua vez, parece estar tendo problemas com o filho recém-nascido. As noites mal dormidas tentando acalmar o novo morador da casa deve estar interferindo no rendimento do meia. Há mais de mês o 10 do Morumbi aproveita as partidas do Tricolor para por o sono em dia. Da pena do novo papai. É um sonâmbulo em campo.

Sem prognóstico - Ao contrário da final da Copa do Brasil, não me arrisco a indicar a fatura como liquidada. Mas sinto que o gol do São Paulo no fim do segundo tempo ontem foi melhor para o Inter que uma vitória por 2 a 0. A diferença menor de escore evita que os jogadores se acomodem e esqueçam de como é difícil vencer o tri campeão da Libertadores e, sem dúvida, melhor time do Brasil atualmente. O Barcelona que se prepare, o campeão da Libertadores 2006 vai para o Japão para ganhar.

Quinta-feira, Julho 27, 2006

Cabeça de papel...

Depois da vitória da semana passada eu já proclamava o Flamengo campeão da Copa do Brasil. Realmente achava que a virada do Vasco seria muito difícil, mas, mesmo gostando de fazer isso, sei que é bobagem afirmar qualquer coisa antes da partida em si. Isto porque, o que define a possibilidade de cada equipe é o que ela faz em campo. E só se percebe isso no decorrer dos 90 minutos.

Se fosse o Vasco o autor do primeiro gol, o desenrolar da final seria outro. Acontece que a história do jogo tornou as coisas mais difíceis do que já estavam com o 2 a 0 da primeira partida da decisão. Renato Gaúcho barrou Valdiram e escalou Valdir Papel em seu lugar. Com três minutos o camisa sete levou o primeiro cartão amarelo. Um carrinho desnecessário distante de qualquer ponto de perigo do campo. Aos 16 minutos mais um carrinho, mais uma vez longe da área, mais um cartão amarelo e a expulsão.

Interessante foi a sensibilidade do técnico Ney Franco ao substituir o jovem Toró por Obina logo em seguida à expulsão do atacante vascaíno. O jogador rubro-negro também já tinha levado um cartão amarelo infantil e a possibilidade do Simon expulsá-lo assim que tivesse oportunidade era muito grande.

Quem viu a partida sabe que qualquer chance do Vasco se tornar mais uma vez o time da virada foi para o ralo depois da saída do Papel. Mais do que ficar com um jogador a menos, o time de São Januário sentiu emocionalmente a expulsão. O Flamengo fez o que quis em campo. Um pouco mais de qualidade nas finalizações e a equipe da Gávea teria goleado ontem.

O único lance de perigo para o goleiro Diego aconteceu quando ainda jogavam onze contra onze. Um chute da entrada da área de Moraes. Apesar do grande número de passes errados dos dois times, os flamenguistas mostraram bastante disciplina tática e dedicação na marcação. Destaque para atuação de Leonardo Moura, Obina, Renato Augusto e, principalmente, do meia Jônatas. Ao contrário dos jogadores do Vasco, o atleta rubro-negro foi tranqüilo nas duas partidas, não se escondeu em nenhum momento da decisão e foi o melhor em campo nestes jogos finais.

Não sei qual era a intenção do Renato Gaúcho, mas não entendi as saídas de Ramon e Moraes. O time já é carente de qualidade e ele ainda saca os dois melhores passadores. Só um dos dois poderia fazer diferença em bolas paradas ou lances individuais na equipe cruzmaltina.

Para finalizar este Flamengo x Vasco histórico vale lembrar o gol do título. Quem joga bola sabe como é gostoso pegar em cheio aquela bola que sobra na entrada da área. A felicidade do lateral Juan na comemoração do gol dá uma dimensão do que é estufar a redes em uma final no Maracanã. É de arrepiar.

Muito chato – Cara, tem umas coisas no futebol atual que acabam com a alegria da gente. O artilheiro do Campeonato Brasileiro e luz no fim do túnel do Botafogo, Dodô, se mandou para a Arábia. Na hora em que parece que o time vai conseguir manter um certo padrão, o jogador referência vai embora. O Dodô já fez isto outra vez no mesmo Botafogo. Muito triste.

Guardado as devidas proporções, vale citar a situação do Ney Franco. Um bom treinador, se comportou muito bem na decisão, mas é muito maluca a trajetória do técnico neste semestre. O cara fez uma excelente campanha no Ipatinga e foi eliminado justamente pelo Flamengo na semifinal. Hoje, comemora o título como se fosse absolutamente normal. Assim como os jogadores não podem defender outra equipe em uma mesma competição, entendo que os “professores” devam ser impedidos de comandar duas equipes durante o mesmo campeonato.